O mercado global de cacau entrou em 2026 ainda sob os efeitos de um dos mais intensos choques de oferta das últimas décadas.
Após sair de um patamar próximo de US$ 2.500 por tonelada para picos ao redor de US$ 11.000 em 2024 e US$ 10.500 em 2025, a commodity passou a incorporar um prêmio climático explícito — refletindo quebras sucessivas de safra na África Ocidental, responsável por mais de 60% da produção mundial.
Os chocolates hoje nas prateleiras foram produzidos quando o cacau ainda estava próximo dos picos recentes. Mesmo com a queda parcial das cotações ao longo de 2025, o alívio nos preços finais tende a aparecer apenas com defasagem — e de forma incompleta, caso novas interrupções na oferta global voltem a pressionar o mercado.
O choque recente teve origem climática. Calor extremo, chuvas irregulares e a disseminação de doenças nas lavouras comprometeram a produção em países como Costa do Marfim e Gana, reduzindo a oferta global e desencadeando uma reprecificação abrupta da commodity.
Mais do que um evento pontual, o episódio passou a ser interpretado pelo mercado como um sinal de mudança estrutural, no qual eventos climáticos extremos deixam de ser exceção e passam a influenciar de forma recorrente a formação de preços.
Nesse contexto, o Brasil surge como um fornecedor relativamente mais estável no curto prazo — funcionando como uma espécie de hedge, ou proteção contra o risco climático global.
Diferentemente do que ocorreu na África Ocidental, não há evidência, até o momento, de quebra relevante de safra em 2026 por fatores climáticos nas principais regiões produtoras do país, como Bahia e Pará. Esse diferencial tem ampliado o interesse de tradings e processadores por origens alternativas.
Ainda assim, o mercado começa a impor limites a essa narrativa. A queda recente das cotações reduziu o incentivo à expansão da produção brasileira, levando à revisão ou adiamento de projetos que ganharam tração durante o pico de preços.
Com isso, o país ganha importância relativa na oferta global, mas não necessariamente capacidade de resposta rápida em um ambiente de escassez.
Há também um risco estrutural que permanece no radar. O cacau é uma cultura altamente sensível a variações de temperatura e regime hídrico, e o Brasil está inserido em um padrão climático que já mostrou sinais de maior variabilidade nos últimos anos, com episódios de calor intenso e irregularidade de chuvas em diferentes regiões agrícolas. A atual ausência de um choque severo não garante estabilidade no médio prazo.
O resultado é um mercado que segue operando sob tensão. A recente correção de preços não elimina a volatilidade, nem resolve os problemas estruturais de oferta.
Para a indústria global de chocolate, isso significa custos ainda elevados e maior incerteza na cadeia de suprimentos. Para o consumidor, o efeito é direto: mesmo com o recuo da commodity, os preços nas prateleiras tendem a permanecer pressionados.
No curto prazo, o Brasil atua como amortecedor. No médio prazo, porém, a pergunta que passa a orientar o mercado é outra — e decisiva para preços, margens e inflação de alimentos —: até quando esse hedge climático continuará funcionando?
